04 | Sobre dificuldades que nunca terei, mas o apoio que sempre vou dar.

Existem coisas na vida das quais eu nunca vou poder realmente entender. E não exatamente porque eu não queira, mas simplesmente porque são coisas das quais eu não vivenciarei, e por isso nunca irei entender em sua complitude.

Ser transexual é uma delas.

Tomando como base a minha vida, meu contato com pessoas transexuais é bastante novo. Algo que aconteceu nos ultimos dois ou três anos. Antes disso, essa concepção era algo que eu simplesmente não ligava, muito por não entender. Apoiava sempre, mas de uma forma muito superficial.

Hoje tenho amigos trans e a história já é completamente outra. Sei que é triste o fato de eu ter precisado ter o contato direto com essa realidade para saber a importância de apoiar e defender e lutar com relação a isso. Talvez por isso eu esteja escrevendo isso, esperando que pessoas que não tiveram a possibilidade de conhecer pessoas trans tentem entender a importância que é se juntar a essa causa, independente disso.

É importante se juntar a essa causa, porque existe ainda muito preconceito relacionado à transsexualidade, e todas as pessoas trans sofrem com isso diariamente. Pessoas que tinham tudo para terem vidas maravilhosas e cheias de futuro, mas que são assombradas por preconceitos diários, as vezes muito pequenos para serem considerados importantes, mas que ferem igual.

É importante se juntar a essa causa, porque nós, pessoas cis, nunca conseguiremos compreender de fato a disforia que é viver em um corpo que não é seu. A ânsia, a dificuldade, o medo, a inibição, a culpa, a dor.

Nós não saberemos o que é não poder ser você mesmo na sua própria casa. Um lugar que era pra ser o seu refúgio, onde as pessoas deveriam te entender e te apoiar. Nunca saberemos o que é ter uma mãe que insiste em dizer que você é uma menina, quando todos os seus pensamentos e sentimentos dizem o contrário. Ter essa mãe te obrigando a depilar as pernas, e te impedindo de sair de casa caso você se recuse. Ter sua mãe até mesmo colocando o feminismo em pauta, dizendo que você só quer ser tratado como homem porque acha que ninguém vai te respeitar como mulher.

Nós nunca saberemos o que é ter ansiedade sempre ao conhecer pessoas novas, com medo do que elas podem falar de você, pensar de você. Não conseguir terminar um trabalho no colégio, porque seus colegas não te respeitam e acabaram danificando todo seu projeto de pesquisa. Ter a universidade cobrindo esses assédios e comentários transfóbicos como se não fosse nada de mais, nem ao menos conversando com os responsáveis por eles.

Nunca saberemos o que é ficar ansioso ao precisar ir ao banheiro quando se está em um local público. Ser excluida de um movimento social que era para te acolher quando todos os outros te afastassem, simplesmente porque você tem um pênis ao invés de uma vagina. Ter que juntar dinheiro por toda uma vida pra cobrir o tratamento. Ter que ficar apenas algumas horas com um binder, quando o que você queria era poder ficar o tempo inteiro com ele. Olhar no espelho e sentir ódio do seu corpo, da visão que você tem, das suas partes, da sua vida. Sentir pessoas te excluindo da vida delas quando você inicia a sua transição. Pessoas desrespeitando seus pronomes, suas vontades, simplesmente porque elas não conseguem acabar com um hábito.

Eu sei que eu só posso dizer todas essas coisas porque tive pessoas ao meu redor, pessoas muito queridas pra mim, passando por tudo isso. Não sei o que é passar por tudo isso, não sei mesmo e nunca vou saber.

Mas o que eu posso saber é como aprender a lidar com isso. É como aprender a apoiar essas pessoas nesses momentos dificeis. Posso aprender a mudar um pronome que sai da minha boca. Aprender a pensar nas pessoas no gênero que elas se sentem confortáveis. Posso aprender a tentar ajudar essas pessoas no que eu puder. Posso também tentar escrever um texto para que as pessoas leiam e tentem se informar um pouco mais sobre isso.

Não posso fazer muito, isso é um fato. Mas posso tentar. Posso lutar junto. Posso apoiar. Posso aprender a entender.

Eu nunca vou compreender realmente o que é ser uma pessoa trans, mas eu nunca vou parar de lutar para que elas sejam, acima de tudo, respeitadas.

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