03 | Sobre traumas e aquela mancha na parede.

Todos nós temos em alguma parede da nossa casa uma mancha. Pode ser uma mancha que está lá desde antes de você se mudar, ou até mesmo uma mancha que você fez e que hoje evita de comentar sobre. Mas ela existe. Na maior parte do tempo você nem nota que ela está lá. Ela já está lá há tanto tempo que é como se já fizesse parte da identidade da parede. Não tem porque notá-la o tempo inteiro, seria exaustivo e infinitamente estressante, afinal você sabe que não vai conseguir tirá-la de lá, independente de quantas vezes você tente esfregar.

Mesmo assim, existem momentos em que é impossível ignorar a presença daquela mancha na parede. Não importa quantas vezes você tente desviar o olhar, ela continuará a importunar sua cabeça, continuará desfalcando o resto da parede, tão clara como a luz do dia. Ela irá trazer de volta todas as outras vezes em que ela te irritou, todas as tentativas frustradas de tirá-la de lá, e todos esses sentimentos virão à tona. Por causa de uma maldita mancha na parede.

Penso ter uma relação similar com um trauma da minha infância. As causas para que esse trauma tenha aparecido na minha vida são agora irrelevantes, assim como da mancha na parede, mas é irrefutável o fato de que esse trauma existe e está lá, fazendo parte da parede da minha alma.

E hoje essa mancha se fez presente.

É frustrante perceber que uma mancha como essa pode me afetar tanto. Me sinto imatura, infantil. Eu deveria agir de forma racional e apenas aceitar que essa mancha está ali e pronto, ela não afeta em nada na vida da parede, então muito menos na minha. Não tem porque me magoar por não conseguir tirá-la dali, mais fácil seria simplesmente aceitar.

Quantas vezes já não tentei enfeitar a mancha, escondê-la com outros móveis, pintá-la, esfregá-la apenas para que eu pudesse viver em paz. Mas ela continuava feia, continuava aparecendo, continuava ali, por mais que eu quisesse que ela não estivesse.

Eu não sei lidar com essa mancha. Não sei tratá-la como se fosse algo que não me incomodasse, não sei ignorá-la por muito tempo. Ela continua trazendo marcas de algo que já foi, continua trazendo lembranças dos momentos dificeis. Continua me machucando e continua me fazendo chorar. Por mais infantil que seja. Por mais imaturo que seja. A mancha impede a parede de ser quem ela pode ser em todo seu potencial, assim como o trauma faz comigo.

Não existe final feliz pra isso. A mancha vai continuar naquela parede até que ela seja destruida e construida do zero. O trauma também. A mancha danifica a parede aos poucos. O trauma também. Mas a mancha também faz parte daquela parede. O trauma também.

Só nos resta então aprender a conviver com isso.

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